O MARTÍRIO DE FREI TITO NAS MASMORRAS DA DITADURA


A tragédia de frei Tito
Quarenta anos depois da morte do dominicano, um dos personagens mais emblemáticos da truculência na ditadura militar, psiquiatra conta detalhes da agonia que o levou ao suicídio

1973. Exilado em um convento nas colinas da vila francesa de L´Arbresle, Tito de Alencar Lima, o frei Tito, volta seu corpo frágil em direção ao vilarejo do outro lado do vale e diz ao amigo, prostrado ao seu lado: “Ouço gritos vindos de lá. São do delegado Sérgio Paranhos Fleury. Ele está torturando meus irmãos e prometeu que vai terminar pela minha mãe.” Fleury estava no Brasil, assim como a família de Tito. Mas sua voz ainda ecoava na mente do religioso. Ouvir suas ameaças não era loucura, nem paranoia, nem alucinação. Foi a maneira encontrada pelo dominicano envolvido com a resistência à ditadura de expressar a violência e a destruição psicológica sofrida durante sessões pungentes de tortura, a primeira comandada por Fleury, então do Dops, em 1969, e a segunda, pela equipe do capitão Benoni de Arruda Albernaz, da operação Bandeirantes, em 1970. Pouco menos de um ano depois, Tito, ainda sufocado pelas lembranças de terror, amarrou uma corda a um álamo, pendurou-se e morreu enforcado. Em seu quarto, seu amigo, o frade francês Xavier Plassat, o mesmo que estava com ele no momento já descrito, encontrou uma anotação: “É melhor morrer do que perder a vida”.

EXÍLIO
Frei Tito em 1974, ano de sua morte, durante viagem pelos alpes franceses;
abaixo, reprodução de carta enviada ao colega de convento Magno Vilela


2014. Passados 40 anos da morte do frade e 50 do início da ditadura, a trajetória de um dos personagens mais emblemáticos da truculência do regime militar é contada no livro “Um Homem Torturado – Nos Passos de Frei Tito de Alencar” (Civilização Brasileira). Entre as mais de 30 entrevistas feitas pelas autoras Leneide Duarte-Plon e Clarisse Meireles está o relato inédito do psiquiatra francês Jean-Claude Rolland, que acompanhou Tito em seus últimos momentos. Ao se deparar com o frei em um quarto de hospital, em 1973, quando de sua primeira internação, o médico cogitou classificar seu problema como sendo um delírio alucinatório. Tito estava encostado em uma parede com os braços abertos, como se estivesse esperando para ser assassinado. “Estou pronto”, disse. Com o tempo, porém, Rolland chamou seu quadro de “sintoma-testemunho”. Ele queria expressar seu sofrimento, e a única maneira que encontrou foi dramatizando o que vivera. “Penso que (Tito) desmoronou quando foi escolhido para ser trocado pelo embaixador, como se a prisão o protegesse contra uma espécie de desejo de morrer”, afirma Rolland no livro, referindo-se à libertação do frei em troca do diplomata suíço Giovanni Enrico Bucher e à posterior mudança do Brasil para a França.

ALGOZ
O delegado Sérgio Fleury, que torturou Tito pela primeira vez e foi
um fantasma na vida do frei em seus últimos momentos


Tito foi preso em 1969 na operação Batina Branca (leia no quadro abaixo). Seu pecado: com outros frades dominicanos, colegas no Convento das Perdizes, em São Paulo, dava apoio logístico à Aliança Libertadora Nacional (ALN), comandada por Carlos Marighella, um dos maiores nomes da guerrilha na época. “Ajudávamos a esconder militantes perseguidos e a mandá-los para fora do País”, diz frei Oswaldo Rezende, que conviveu com Tito até 1969 no Brasil e depois o reencontrou na França. “Não havia outra opção. À medida que a ditadura começava a ter um caráter extremamente repressivo, crescia a ideia de que só tinha uma saída, a luta armada”, afirma Ivo Lesbaupin, ex-frei e também colega de Tito. Progressistas, os dominicanos acreditavam na interpretação do “Evangelho” em favor da justiça social. “Não pegamos em armas, mas dar apoio a quem precisava nos parecia o caminho para combater a violência da ditadura.” No livro, fica evidente, porém, que Tito foi um dos primeiros a apontar as falhas no projeto revolucionário. “Ele era muito questionador. Via os limites da revolução popular e apontava a falta de adesão do povo”, diz Clarisse Meireles.


A lembrança que frei Oswaldo tenta guardar de Tito é a dos anos do convento. “Ele era alegre, tínhamos boas conversas”, diz. “No exílio, quando nos reencontramos, já não o reconhecia. Havia algo de diferente em seu olhar.” A segunda vez que passou pela tortura, sob o comando do capitão Albernaz, o abalou ainda mais. Entre os freis, foi o único a ter duas temporadas de sevícias. Mas, como aponta o psiquiatra Jean-Claude Rolland e concordam os seus antigos colegas, o fato de sair do Brasil foi o motivo decisivo para desestabilizá-lo. “Ele sentiu o afastamento do País mais do que todos nós exilados. Queria voltar de qualquer jeito”, afirma frei Oswaldo. Mesmo à distância, continuava militando. Segundo a autora Leneide Duarte-Plon, mantinha a imprensa informada e constantemente dava testemunhos sobre a tortura sofrida. Volta para 1970: em dado momento, durante os três dias de castigos na Operação Bandeirantes, Albernaz manda Tito abrir a boca para receber a hóstia consagrada e coloca um fio para que o frei tome choques elétricos. Dizia que, se Tito não falasse, seria quebrado por dentro. E foi. Cinco décadas depois, assim como o terror da tortura ecoou na mente de Tito, sua trágica experiência reverbera na história do Brasil. Para que não se repita mais.

O mundo é dos pequeninos

A imagem pode conter: uma ou mais pessoas e pessoas sentadas
" Entender o mundo a partir dos olhos de quem sofre é uma das maneiras de diminuir o sofrimento! " Julio Lancellotti 

O PROBLEMA DA IMIGRAÇÃO NUMA PERSPECTIVA BÍBLICA

Resultado de imagem para imigração charge
Por Hermes C. Fernandes
A propósito da nova lei de migração aprovada nesta terça-feira (18/04) pelo Senado que visa garantir a migrantes que chegam ao país os mesmos direitos dos cidadãos brasileiros, gostaria de propor um exame da questão da imigração sob duas perspectivas, uma bíblica e outra política.
Durante o tempo em que morei com minha família nos Estados Unidos, encontrei muitos brasileiros cristãos naturalizados americanos, ou já em posse de seu Green Card, que apoiavam a iniciativa do governo de perseguir os ilegais. Segundo eles, os imigrantes indocumentados estariam cometendo um tipo de pecado, por desobedecerem às leis do Estado. Ora, apesar de este tipo de postura estar embasado no texto bíblico, carece de um exame mais profundo da questão. Há vários precedentes bíblicos de pessoas retas que em algum momento de suas vidas foram imigrantes. A principal delas é o próprio Jesus, que fugindo da perseguição de Herodes, foi levado pelos seus pais para o Egito, onde viveu os primeiros anos de sua infância. Um Deus que conhece na pele o que é viver em terra alheia, sendo vítima de todo tipo de preconceito, pode perfeitamente identificar-se com aqueles que vivem a mesma situação. Será que ele viveu legalmente no Egito? Bem, se viveu escondido, como diz a Escritura, logo, viveu na clandestinidade.
E o que dizer de Moisés? Pelo decreto de Faraó, todos os recém-nascidos dentre os hebreus deveriam morrer. Mas as parteiras o desobedeceram deliberadamente. Por algum tempo, Moisés, além de filho de imigrantes, viveu na ilegalidade, até ser descoberto e adotado pela filha do monarca egípcio. Poderíamos apontar outros precedentes bíblicos, mas em vez disso, que tal buscar a instrução dada por Deus quanto ao trato que deve ser dispensado ao imigrante?
Logo durante a organização civil do povo hebreu, Deus ordena:
“O estrangeiro não afligirás, nem o oprimirás, pois estrangeiros fostes na terra do Egito.”
O Supremo Legislador chama seu povo à consciência: Lembrem-se de que vocês também foram imigrantes. Não tratem o estrangeiro da maneira como vocês foram tratados no Egito!
Além do mandamento claro, Deus ainda adverte:
“Se de alguma maneira os afligirdes, e eles clamarem a mim, eu certamente ouvirei o seu clamor. A minha ira se acenderá.”
Ora, tanto o Brasil, quanto os Estados Unidos são países construídos por imigrantes. Os mesmos americanos que vociferam contra os ilegais são filhos e netos daqueles que deixaram a Europa, a Ásia e a África em busca de oportunidades na América. O próprio presidente Barack Obama é filho de imigrante, o que gerou enormes expectativas por parte da comunidade de imigrantes de que a tão sonhada reforma migratória finalmente saísse.
Muitos acham que a decadência moral e espiritual da América se deva à proibição de se fazer orações nas escolas, como antigamente, e a remoção de símbolos cristãos dos edifícios públicos. Pode até ser que isso tenha colaborado (tenho minhas dúvidas). Porém, não encontramos advertências bíblicas de que a ira de Deus se acenderia caso as crianças não orassem mais nas escolas, ou tivessem que aprender outra teoria que não fosse o criacionismo. Em vez disso, a advertência de Deus diz respeito ao tratamento dado aos estrangeiros. Pelo jeito, tem muita gente coando mosquito e engolindo camelos.
Outros alegam que leis migratórias mais duras coibiriam o aumento de criminalidade, diretamente ligado à imigração ilegal. Afinal, dizem eles, uma significativa parcela de crimes é praticada por estrangeiros. Ora, este raciocínio, além de preconceituoso, é raso e falacioso. Por que jovens imigrantes se envolvem com o crime? Não será pelo fato de não poderem concluir seus estudos? Ou ainda por não terem acesso ao mercado de trabalho formal? Quiçá estejamos invertendo a ordem, enxergando causas onde há efeitos, e efeitos onde há causas.
Quantos jovens imigrantes são vítimas de bullying nas escolas americana? Pergunte aos meus filhos. Eles te dirão o que testemunharam. Se isso não é afligir o imigrante, o que é, então? Com quem estas crianças aprendem a desprezar colegas de outras etnias ou nacionalidades? Muitos ouvem seus pais acusarem os imigrantes por estarem desempregados, e acabam descarregando suas frustrações nos colegas da escola.
Não basta simplesmente não afligir o imigrante. A orientação bíblica vai além:
“Como o natural entre vós será o estrangeiro que peregrina convosco. Amá-lo-eis como a vós mesmos, pois fostes estrangeiros na terra do Egito. Eu sou o Senhor vosso Deus.”
O imigrante precisa ser aceito, amado, acolhido. E mais: Deve ser tratado como se fosse nativo. Em momento algum Deus ordena que se dê privilégios aos imigrantes, e sim, que sejam tratados sem discriminação. Caso contrário, o juízo de Deus virá.
Deve-se amar o estrangeiro pelo simples fato de Deus mesmo amá-lo.
O trato que Deus ordenou que seu povo dispensasse ao estrangeiro era de tal ordem, que é usado como referência para o trato que devemos dispensar a nossos irmãos, quando estes atravessarem alguma dificuldade econômica:
“Quando teu irmão empobrecer e as suas forças decaírem, sustentá-lo-ás como a um estrangeiro ou peregrino, para que viva contigo.”
Quem diria... Em vez de o estrangeiro ser tratado como irmão, o irmão que deveria ser tratado como estrangeiro. Porém, hoje, tratar um irmão como se fosse um estrangeiro, seria considerado um total descaso, dado o desprezo com que tratamos àqueles que consideramos diferentes de nós.
Portanto, não se pode tomar o estrangeiro como bode expiatório da crise econômica. É comum justificar a perseguição aos imigrantes alegando que estes estejam tomando as vagas de emprego que poderiam ser ocupadas pelos nativos. Será que o americano, por exemplo, estaria disposto a assumir o tipo de serviço exercido pela mão-de-obra estrangeira? Será que o europeu típico se ‘rebaixaria’ a fazer o que um imigrante africano faz?
Um censo recente apontou que a população latina dos EUA alcançou a casa dos 50 milhões. A divulgação desse dado desencadeou um debate em torno do capital político representado por este enorme contingente. Os latinos podem ter sido a “chave” das eleições de 2012. Já há mais latinos do que negros no EUA. Se todos os imigrantes latinos fossem legalizados e com isso, obtivessem o direito ao voto, poderiam decidir qualquer eleição. A perseguição aos imigrantes, sobretudo, de origem latina, tem o sórdido objetivo de diminuir sua influência política. Algo semelhante ao que Faraó intentava, ao ordenar a morte dos infantes hebreus.
Do ponto de vista econômico, uma reforma migratória mais dura equivaleria a dar um tiro no pé. Só em 2009, os brasileiros injetaram mais de 4 bilhões de dólares na economia americana. No ano seguinte, teriam sido mais de 10 bilhões. Não são somente os pastores brasileiros que atuam naquele país que estão preocupados. O comércio, a indústria hoteleira, e até os parques têm razões de sobra para colocarem as barbas de molho. Imagine, por exemplo, se os brasileiros, que hoje são responsáveis pelo segundo maior número de visitantes de Orlando, resolvessem boicotar a cidade? Não se esqueçam de que a Disney não é exclusividade da Flórida. Também há parques na Europa e na Ásia.
Urge que se levante alguém com o cacife profético de Martin Luther King para conclamar a população latina a unir-se em busca de seus direitos civis. Brasileiros e hispanos estão no mesmo barco. Somos todos latinos, com nossas convergências culturais, e não podemos desperdiçar a oportunidade histórica de lutarmos pelas próximas gerações. Aquele país ainda será governado por um presidente de origem latina. Quem viver, verá.
Por outro lado, o Brasil também tem recebido uma enxurrada de imigrantes. Semelhante à terra do Tio Sam, nosso país também foi construído por imigrantes oriundos de várias partes do mundo. Por que daríamos boas vindas aos que vêm da Europa, e não acolheríamos com o mesmo calor os que vêm de um país dilacerado como Haiti ou os que fogem da guerra na Síria?
Que direito teríamos de tratar refugiados como escória? Por mais grave que seja a crise que estejamos atravessando, nada justifica esta postura xenófoba que tem sido verificada em nossa sociedade nos últimos tempos.
Assim como damos boas vindas aos turistas que aportam em nossas cidades durante o carnaval e o réveillon, com os bolsos cheios de dólares para serem gastos aqui, devemos abrigar os que deixam sua pátria em busca de refúgio ou de oportunidades de melhorar sua qualidade de vida. Se os turistas vêm para gastar, os imigrantes vêm para nos ajudar a construir.